29/10/2020 às 16h47min - Atualizada em 30/10/2020 às 11h00min

CUIDADO ALÉM DA VIDA: Conheça Seu Nico, o coveiro de Cocal do Sul

Há 34 anos, seu Nico cuida do Cemitério de Cocal do Sul como se fosse sua segunda casa.

Ana Paula Nesi
Foto: Ana Paula Nesi
Cuidado além da vida! Eu, como jornalista, não poderia encontrar uma frase melhor para descrever o trabalho de Antonio Carlos dos Santos, o Seu Nico, como ficou carinhosamente conhecido no Cemitério Municipal de Cocal do Sul, seu local de trabalho.
Desde 1986, Nico dedica grande parte de seu dia a manutenção, organização e limpeza do local onde estão sepultados entes queridos da maior parte da população sul-cocalense, além de ser a pessoa responsável pelos sepultamentos. Aos que ainda não o conhecem, o Portal Cocal, vai contar a sua história.


 
Nico tem 59 anos e é morador do bairro Boa Vista, em Cocal do Sul. Ele, que é solteiro, conta que sua dedicação é o trabalho no cemitério. Trabalho este que faz por amor. O gosto pela função nasceu há 34 anos. “Havia um senhor que já é falecido, que quando eu saí da Elaine, foi o autor de me ensinar cada túmulo, cada detalhe daqui e eu aprendi a gravar na mente. Hoje eu sei onde estão todos. É só falar que eu sei dizer onde está”, conta, fazendo questão de ressaltar que está disponível 24 horas para o serviço.
 
Nico afirma ter registrado em sua mente cada família, cada pessoa que está sepultada no local. O coveiro brinca que é quase um guia turístico para as pessoas que vem de outras cidades. “Para o dia de finados aparecem muitas pessoas de fora e não sabem onde está enterrada a pessoa, porque às vezes troca de lugar também, ai eu vou e mostro”, destaca, lembrando que para ele, esse é praticamente um compromisso. “Eu gosto de fazer esse tipo de trabalho, sempre acompanhando a população, ajudando”.
 
Durante a entrevista, não havia quem passava pelo local que não o conhecia ou falava com carinho sobre ele. Relatos como o de Mara, que mora em Cocal há 42 anos, e citou conhecê-lo desde quando era um “guri”. Nos encontros da vida, foi Nico quem sepultou o irmão de Mara e outros entes queridos dela.
 
Leandro de Oliveira trabalha no cemitério há 14 anos construindo capelas e túmulos. Colega de trabalho de Nico, ele afirma ver no senhor, que dedica sua vida ao serviço, muito mais que isso. “Ele é um amigo que está ali em todas as horas, todos os momentos que a pessoa precisa. Ele nunca deixa ninguém na mão. Sábado, domingo, ligou para ele, ele está aqui. Ele faz por amor e merece estar nesse lugar onde ele dedica a vida dele”, declara Leandro.
 
Acompanhando tantos momentos de dores e despedidas ao longo de décadas, Nico cita um fato recente que foi o falecimento da irmã que ocorreu no mês passado. “Quando estamos fazendo o sepultamento de outros entes queridos, a gente sente a dor. Quando a gente vai enterrar um da família da gente, a dor é mais forte do que a gente pensa. É como se juntasse todos que a gente já acompanhou o sepultamento. Naquele dia, eu não tive coragem de fazer [o sepultamento], então eu pedi ajuda do meu parceiro e ele foi lá e fez”, lembra.
 
 O coveiro recorda também da chegada da pandemia de Coronavírus no inicio deste ano e menciona que foi o responsável por realizar o enterro das vitimas sul-cocalenses. “Como tenho vários cursos, eu me preparei, tenho a roupa de isolamento e com toda higienização pude estar realizando o sepultamento para aquelas famílias que eram até proibidas de estar tendo aquele último momento de despedida”, conta, dizendo que cuida da saúde fazendo os testes e todo acompanhamento médico necessário.
 
Mas quem vê o trabalho dele como algo simples, se engana. O profissional busca estar sempre atualizado. “Eu vou buscar muitos treinamentos em cemitérios de fora, buscar sabedoria. Tem cemitério que é organizado, outros não e assim eu aprendo a ver as coisas que estão certas e as coisas erradas aqui”, destaca o responsável que tenta sempre prezar pelo máximo de organização e limpeza no local.


 
Tão organizado, Nico ressalta o desgosto que tem pela falta de cuidado de algumas pessoas que ao limpar seus jazigos, ainda deixam de jogar o lixo no lixo, para jogar atrás de outras capelas. “Lixo se coloca no lixo, então eu vou lá e faço”, afirma deixando um último pedido: “Cada um pode manter seu jazigo limpo, colocando o lixo no lugar certo, sem jogar no espaço do outro. Então o pedido que deixo para as pessoas é que organizem seu jazigo, seus túmulos e cumpram seus deveres. Como a gente faz em casa, a gente tem que fazer aqui também. Não é porque morreu que acabou, tem que dar valor e esse valor tem que ser continuo”, finaliza.






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