03/09/2020 às 11h09min - Atualizada em 03/09/2020 às 11h09min

O CAMINHO DA CARNE: da pecuária familiar até sua mesa

Conheça o processo de criação e processamento de suínos de uma pequena propriedade no interior de Pedras Grandes.

Ana Paula Nesi
Fotos desta matéria: Ana Paula Nesi
     Quando falamos em pecuária, logo vêm em nossa mente, enormes fazendas, com milhares de animais, centenas de funcionários, grandes maquinários. Mas o que as vezes esquecemos, mas tem uma grande importância para a produção alimentícia e economia do Brasil, é a pecuária familiar.
     O Portal Cocal visitou uma família que trabalha com a criação de suínos e processamento da carne, que mais tarde, pode chegar a sua mesa. Tudo, como a família define “mais natural possível”. Conheça a Indústria e Comércio de Carnes Rodrigues.
 
 
Do nascimento ao abate
 

     Seu Antônio Rodrigues, tem 59 anos e cuida com carinho dos mais de 800 suínos que fazem parte de sua propriedade, no interior de Pedras Grandes. Ele faz questão de destacar que os cuidados começam com a alimentação do animal. “Para a ração só usamos produtos de qualidade. Usamos milho bom, daqueles que podem virar farinha. Existem hormônios e outras substâncias que podem ser adicionados na ração do animal, mas nós não achamos algo bom. Preferimos uma ração boa e limpa”, afirma.
 

 
     Toda a ração é processada na propriedade, é que conta Maria de Lourdes Gregório Rodrigues, 61 anos, casada com Antônio há 35. “A gente compra o milho, compra a soja e o mineral para cada fase de crescimento do animal e faz a ração aqui”. A maior parte do trabalho é feito de maneira manual, sem a industrialização por maquinas, algo que o casal conta que gostaria de poder investir no futuro.
 
     Toda a granja de suínos na propriedade foi construída visando à segurança e o bem-estar do animal durante seus aproximados, 150 dias de vida. Em baias suspensas, com piso vazado, todos os dejetos vão para um reservatório inferior, evitando que o animal fique em meio à sujeira.
 

 
     A água está sempre disponível e o alimento também é fornecido conforme cada fase de crescimento do suíno. “A agua que eles bebem é a mesma que nós bebemos lá em casa e vem de fonte natural, São 1,7 km de mangueiras que levam a água da fonte à propriedade, ela é testada e aprovada para consumo humano” destaca Lourdes.
 

 
     Toda a estrutura é dividida em setores, que vão das matrizes reprodutores, passando pela maternidade, creche, até o setor de terminação.
 
Setor de reprodução:
 
     Neste espaço ficam os machos reprodutores, as matrizes gestantes e desmamadas e as leitoas de reposição. Todos os animais recebem cuidados especiais porque é através deles que logo serão gerados novos filhotes e é preciso garantir que haja uma boa genética e desenvolvimento dos mesmos.
 
Setor de maternidade
 

     É neste espaço que as fêmeas gestantes ficam até ganhar seus filhotes. A atenção para este espaço é a baia especial que possui um vão livre para que os pequenos leitões possam circular um pouco mais longe da mãe, evitando o esmagamento.
 

 
     “Elas vão para o espaço cerca de sete dias antes de criar, pois quando estão parindo ou até as vezes na hora de amamentar, elas acabam pelo estresse se virando e esmagando os pequenos”, explica Antônio, justificando as baias diferenciadas.
 

 
     O espaço possui lâmpadas que ajudam a aquecer os porquinhos no nascimento e também nos primeiros dias de vida, onde segundo o suinocultor, eles buscam o calor. Para isso escamoteadores, que são uma espécie de ‘casinha’ destinada a proteção dos leitões, se encontram nas baias e garantem acesso dos filhotes a luz e ao calor.  “Eles são pequenos e escolhem a lâmpada por ser mais forte, o que evita que eles se aproximem da mãe leitoa e corram o risco de ser sufocados em um eventual movimento dela”, garante. Após alguns dias, o desmame pode ser feito e os porquinhos passam para a creche.
 
Setor de Creche
 
     É neste espaço que os leitões recém-desmamados ficam para dar continuidade ao processo de crescimento. Com água e ração sempre disponíveis, e todos os cuidados de veterinária e saúde.
 

 
Setor de enfermaria
 
     Há um espaço reservado apenas para animais que apresentem algum problema de saúde. Neste local, os suínos são devidamente tratados e medicados e depois de recuperados voltam para seu setor ou, no caso de não melhorarem, são abatidos e vão para a composteira, que é o local próprio para a decomposição de animais mortos e restos de parição e afins.
 
Setor de terminação
 
     É o último estágio dos suínos antes do abate. Também chamado de setor de engorda. É aqui que os animais ganham peso e se desenvolvem para sua fase final.
 

 
     Lourdes destaca que o único processo que a propriedade não realiza é o abate do animal. “Ainda não temos a área de abate, devido ao grande investimento que é ter uma”. Ela conta que o marido leva os animais na quarta-feira, final do dia para o Frigorifico Swini, em Pedras Grandes, que realiza o abate e na quinta-feira ele os busca quando já estão devidamente abatidos e refrigerados.
 
O processamento da carne
 

     Chegando à área de processamento da família Rodrigues, a carne passa pelos seus processos finais antes de ir para a mesa do consumidor. Quem entra no espaço, precisa higienizar pés e mãos e todo cuidado com higiene é tomado.
     “Temos uma inspetora e uma responsável técnica que cuidam de toda parte de fiscalização das normas. Elas vêm uma vez por semana, sempre sem avisar data e horário, para ver se todas as regras de higiene incluindo vestimenta e produtos de EPI estão sendo aplicadas. É uma fiscalização rigorosa”, afirma Lourdes.
 
     O primeiro passo pelo qual o animal já abatido passa ao chegar na propriedade, é a desossa. Onde pendurados em trilhos, tem retirados todos os ossos e partes que não irão para o consumo e venda.
     Tudo que é rejeito, é armazenado em câmara fria, em temperatura determinada pelas regras da Cidasc e posteriormente a empresa Ossotuba realiza o recolhimento para o devido descarte. “Aqui para nós, o animal já vem abatido, limpinho, sem as vísceras, cabeça e pés, para apenas desmontarmos e produzirmos os produtos que vendemos” ressalta.
 
     Depois de desmontado, o produto vai para a sala de corte, onde o que a carne, como lombo e costela, é separado do que ira virar torresmo, bacon e outros derivados.
     Lourdes explica que os cortes são embalados, colocados em uma câmera fria, e o restante da carne é separado em caixas para virar salame na terça-feira, pois a carne é moída, temperada e deixada em descanso, também em câmera fria para depois ser embutida.
 

 
     “É um processo bem artesanal, como era feito antigamente. Usamos a carne da forma mais pura, sem acrescentar aditivos, por isso sempre orientamos nossos consumidores a manter o produto sempre refrigerado, evitar locais quentes, pois prezando pelo produto natural, preferimos evitar os muitos conservantes e também, escolhemos não trabalhar com produtos embalados a vácuo. É o mais natural possível”, lembra a produtora.
 
     Na banharia, o torresmo, a morcilha e a banha são produzidos. O salame é seco em uma sala especial com ventilação mecânica que garante a higiene e qualidade do produto.
 
“Nosso diferencial é a pureza da carne e o modo de trabalhar tipo artesanal. Não usamos aditivos, nem outros ingredientes para dar volume no produto. Usamos apenas carne, alho, pimenta e outros temperos na produção dos salames”, ressalta.
 

 
     O catálogo de produtos derivados do suíno oferecidos pela empresa é variado e conta com: Salame colonial verde e seco, linguiça para churrasco temperada, salame defumado, salame tripa reta, costelinha defumada, bacon, lombo defumado, calabresa, costela e lombo in natura, temos a copa artesanal, banha e morcilha
 
     São quatro os trabalhadores no espaço, sendo eles, a própria Lurdes, a filha mais velha do casal, Rita, a madrinha da filha mais jovem e um funcionário que também é conhecido da família. A parte da granja é de responsabilidade de Antônio, que cuida de toda parte de matriz reprodutora, castração, vacina e cuidados gerais. Tudo amparado por uma veterinária que atende o negócio da família.
 
“Todos os produtos que nós produzimos aqui, o que o nosso cliente consome é o mesmo que nós consumimos em casa, não tem diferença”, afirma Lourdes.
     A produção atual da empresa é de 4,5 toneladas mensais. São em torno de 100 suínos abatidos por mês, cerca de 25 animais por semana. Cada animal rende em média 45 kg de carne.   “Prezamos pela qualidade. As vezes o consumidor procura preço baixo, mas não se atenta a qualidade do produto. Nosso custo de produção, como pequeno empreendedor não é tão baixo, e nosso preço tem ligação direta a nossa qualidade”, completa Antônio.
 
A Família Rodrigues e o inicio do negócio
 
     Lurdes, 61 anos trabalha na agricultura desde os sete anos de idade com a família na estufa de fumo, Em 1982 se tornou professora do ensino básico (1ª a 4ª serie) onde atuou por 23 anos até se aposentar. E após a aposentadoria passou a se dedicar exclusivamente à agricultura familiar junto com o marido, Antônio, 59 anos, com quem é casada há 35 anos e tem duas filhas, Rita e Nadine.
     Antônio sempre foi agricultor. Plantava fumo, batata, milho, feijão, criava gados desde solteiro, e quando casou, deu sequencia a atividade. Lurdes dividia o tempo como professora com as atividade de mãe e agricultura com Antônio nos tempos livres.
     A ideia de criar porcos veio do marido em 1990.
“Começamos com cinco porquinhas e um machinho, e graças a Deus, deu certo e hoje já temos cerca de 800 animais”, lembra Lourdes
 

 
Onde encontrar os produtos?
 
     O foco de venda é a feira-livre em Cocal do Sul, mas muitas pessoas acabam conhecendo e indo até a propriedade adquirir os produtos.  Outros pequenos comércios também fornecem alguns itens, principalmente os salames e torresmos que são o principal produto que a família produz. 
Onde encontrar:
 
Em COCAL DO SUL:
  • FEIRA DA AGRICULTURA FAMILIAR (toda Sexta das 7h às 15h30min)
  • Na residência da família no Morro da Antena (Vivo e Tim)
  • Panifran.
  • Mercado Silvio Grassi
  • Verdureira do Edinei.
 
Em URUSSANGA:
  • Tafona do Maestreli ou Derdi.
 
Em TUBARÃO:
  • Padaria e confeitaria Porton (Bairro Oficinas próximo ao sacolão)
  • Padaria Humaitá (Bairro Humaitá)
     “Nosso principal comércio é a feira-livre e o boca a boca. Temos o sonho de um dia abrir um espaço só nosso para oferecer nossos produtos, mas isso também dependerá das nossas filhas, se elas irão querer dar continuidade no negócio da família”, finaliza Lourdes.
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